Trump 2.0: Entre o escorregão e a queda

Quantum Bird – 4 de abril de 2025

English version available at Chronicles of the Global South: https://globalsouth.co/2025/04/04/trump-2-0-between-the-slip-and-the-fall/

A maioria das pessoas já presenciou alguém escorregar e cair ao tentar descer uma ladeira escorregadia e molhada. As ações da pessoa nos instantes entre o escorregão inicial e a queda inevitável são cruciais para a gravidade final do episódio. Logicamente, seria melhor evitar descer tal ladeira, mas se isto for impossível, a atitude apropriada seria descer devagar e cautelosamente, considerando que um escorregão, seguido de uma queda, é muito provável. Seja como for, uma vez que o contato com o solo foi perdido, tentar desesperadamente evitar a queda com uma sucessão de movimentos desordenados tende a causar lesões desproporcionalmente graves. Este é o caso dos EUA no momento.

Ontem, 2 de abril de 2024, com um dia de atraso – 1 de abril, que é o dia internacional da mentira, seria uma data mais apropriada – os EUA anunciaram seu pacote de tarifas alfandegárias sobre importações. Usando poderes de emergência nacional, Trump anunciou tarifas de 10% sobre todas as importações para os Estados Unidos e tarifas ainda mais altas sobre produtos de cerca de 60 países ou blocos comerciais que têm um alto déficit comercial com os EUA. A data foi apelidada de “Dia da Libertação” e constitui uma declaração efetiva de guerra comercial contra o resto do mundo. Segundo Trump, ajustes tarifários adicionais serão discutidos bilateralmente.

A retórica de Trump e sua equipe para justificar o pacote de tarifas é um exercício histórico de demagogia, ignorância e enganação. E também, desespero. Os objetivos declarados principais da medida são promover a reindustrialização e livrar os EUA da exploração exercida pelos países alvos da atividade econômica estadunidense. O primeiro objetivo é inatingível no curto prazo de dois anos antes de Trump se tornar um pato manco na presidência devido às eleições parlamentares de meio de mandato, e o segundo é uma falsificação descarada da história econômica recente do mundo.

De fato, lendo a lista de países “penalizados”, mesmo considerando que não é claro como o déficit comercial alegado foi calculado, duas características saltam aos olhos. Primeiro, todos os países listados são alvos prioritários da pressão geopolítica, militar e econômica dos EUA, o que significa que as tarifas constituem um instrumento adicional de alavancagem dos interesses estadunidenses nestes lugares.

Barra lateral: Existe uma confusão enorme no noticiário entre sanções e tarifas alfandegárias. As diferenças são significativas e abrangem diversos aspectos. Trataremos disso em um artigo separado. Aqui é importante atentar para o fato que enquanto sanções implicam no banimento relações comerciais, sequestro de bens, e, frequentemente, em restrições de relações diplomáticas que inviabilizam o acesso de indivíduos, entidades jurídicas e inteiros países à recursos essenciais e participação em entidades multilaterais, as tarifas alfandegárias são um instrumento de política comercial legítimo e soberano. Além disso, de acordo com a Carta das Nações Unidas, sanções estabelecidas fora do sistema da ONU são ilegais.

A segunda característica, repleta de nuances, torna-se evidente ao observar que a maioria esmagadora dos países da lista está infestada por multinacionais estadunidenses. Essas indústrias foram massiva e deliberadamente transferidas dos EUA — promovendo sua desindustrialização acelerada — ao longo dos últimos 25 anos do século passado para promover uma arquitetura econômica conhecida popularmente como globalização, que previa exploração de mão de obra barata nos países em desenvolvimento, o uso de força militar e o abuso do dólar como moeda de reserva internacional para transformar os EUA num polo para o qual convergiria toda a riqueza gerada globalmente. Seja devido às contradições inerentes ao próprio esquema – financeirização, perda de controle governamental sobre a economia, cadeias de suprimentos longas e instáveis, degradação do mercado de trabalho local, banalização de sanções econômicas unilaterais, etc –, à ascensão da China e da Rússia como competidores econômicos paritários e ao florescimento da multipolaridade como paradigma de interação geopolítica e econômica entre os países do Sul Global, o esquema da globalização não deu muito certo. O próprio vice-presidente estadunidense, J.D. Vance sintetizou as conclusões das elites EUA sobre os problemas com a globalização nos seguintes termos:


A primeira é assumir que podemos separar a fabricação das coisas do design das coisas. A ideia da globalização era que os países ricos subiriam mais na cadeia de valor, enquanto os países pobres fariam as coisas mais simples.

[…]

Agora, nós assumimos que outras nações sempre nos seguiriam na cadeia de valor, mas acontece que, à medida que elas melhoravam na extremidade inferior da cadeia de valor, elas também começaram a se desenvolver na extremidade superior. Fomos espremidos de ambas as extremidades. Agora, esse foi o primeiro conceito da globalização.

Ou seja, o governo Trump está totalmente ciente do declínio inexorável do império estadunidense. Na verdade, as elites dos EUA estão desesperadas com o prospecto da queda. E é esse desespero, somado a uma demonstração de analfabetismo econômico e geopolítico sem precedentes, que está no âmago do Dia da Libertação. Todos os presidentes desde G.W. Bush se elegeram prometendo trazer de volta as indústrias, nenhum deles foi capaz de fazê-lo. Tampouco será Trump. A reindustrialização dos EUA, como de qualquer outro país, requer um planejamento estratégico de longo prazo que nenhum império em declínio pode executar. Esta é a componente sistêmica da equação.

A componente circunstancial tem a ver com a imprevisibilidade e o analfabetismo geopolítico e econômico de Trump e sua equipe. Realocação de indústrias é uma tarefa complexa de longa duração extremamente dispendiosa, que requer investimentos massivos de capital privado e público para formação de mão de obra, infraestrutura e remodelagem de cadeias de suprimentos. Nada disso cai do céu do dia para a noite e os EUA têm problemas sérios em todos estes aspectos. Sendo assim, como poderiam os investidores realocarem suas indústrias para os EUA, para evitar perda de competitividade no mercado estadunidense, se não existe nenhum plano de longo prazo e o próprio presidente declarou que as tarifas estabelecidas no Dia da Libertação serão objeto de revisão e negociação bilaterais?

Ademais, as retaliações serão inevitáveis. E devastadoras, pois não estamos mais em 1950, imediato pós-guerra, quando o resto do mundo estava em ruínas e os EUA eram a única superpotência industrial operante. Ou seja, os países precisavam exportar para os EUA para adquirir dólares para importação de bens manufaturados. Esse tempo passou. Os EUA não são mais o maior parceiro comercial da maioria dos países do mundo. A China vem ocupando esse lugar. Quanto aos EUA, o resultado será inflação fora de controle em casa e perda acelerada de competitividade da sua indústria doméstica remanescente nos mercados globais.

Agora, considere por um momento uma perspectiva diferente, de que talvez o Dia da Libertação de Trump nada tenha a ver com “Fazer a América Grande Novamente” (MAGA), mas faça parte de um desenvolvimento mais amplo, que consiste no saqueamento final da riqueza remanescente do império antes de sua derrocada definitiva. Isso parece fazer mais sentido. Vocês se lembram do dia da inauguração, todos aqueles bilionários na primeira fila? Pois é, o Trump está de fato gerindo a retirada e o declínio dos EUA de modo a garantir o saqueamento final da riqueza do império por esses oligarcas, e a transferência do ônus para a população dos EUA, e se possível, também do resto do mundo. Por exemplo, as demissões em massa de funcionários federais e cancelamento de programas governamentais promovidas por Elon Musk, o homem mais rico do mundo, a título de promover “eficiência”, economizaram para o governo federal um cifra equivalente a, no máximo, um terço de sua fortuna pessoal. E estamos falando apenas de um desses oligarcas. Por outro lado, o que dizer da redução massiva de impostos cobrados sobre suas grandes fortunas?

E para encerrar, voltando à retórica demagógica que cerca estes desenvolvimentos. Sobre as declarações de Trump de que suas medidas econômicas têm o objetivo de libertar os EUA da opressão exercida pelo resto do mundo, imagine o seguinte: um senhor de engenho que, após jogar seus escravos na rua sem nenhum recurso de sobrevivência, para viver sob um regime de apartheid, declara que se libertou do enorme fardo de escravizá-los.

3 Comments

  1. Marco Santos said:

    Perfeito, infelizmente. Parabéns!

    5 April, 2025
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  2. Claudio said:

    Excelente. Quisera tal avaliação ser amplamente divulgada para ampla maioria da população mundial. Mas a idiotização já se completou, infelizmente

    4 April, 2025
    Reply
    • Quantum Bird said:

      Sinta-se livre para compartilhar! Muito obrigado.

      4 April, 2025
      Reply

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